Séverine está transtornada com a
tempestade de sensações que ela mesma desencadeou ao lançar o tema da
sexualidade. Os pensamentos viravoltam na sua mente, mas ela não consegue se fixar
em nenhum pois uma avalanche de sensações tomou conta do seu corpo lhe roubando
a faculdade de raciocinar.
Enquanto busca apaziguar o vulcão que
explodiu dentro dela, Pierre prossegue na sua estocada impiedosa.
- E você não se sentiu satisfeita – complementa com
uma voz calma e suave que a golpeia novamente.
Foi como se levasse um tapa na cara e Séverine
demora um pouco para responder.
Aproveitando seu abalo, Pierre acrescenta:
- Desculpe-me as perguntas diretas e indiscretas,
mas você abriu um assunto que não se satisfaz com meias palavras ou falso
pudor, entende?
Está claro sim, límpido! Não havia nenhuma hipocrisia
em seu tom de voz, nem ironia ou sarcasmo, apenas um profundo senso de
sinceridade emanando da sua voz calma e composta.
- Não, não totalmente – responde finalmente. – Eu
tive a impressão de um prazer incompleto, ou melhor, de um prazer que, na
verdade, não entendi.
E continua:
- Em suma sim, é isso, eu fui insatisfeita – diz
baixando o olhar.
Sem lhe deixar tempo de se recuperar, Pierre a
golpeia de novo.
- O que faltou é o que sentes agora. Esse desejo
que habita teu corpo e devora tua alma, não é?
A frase lhe provoca o efeito de uma chicoteada e,
pior, aumenta mais ainda sua excitação! Sente-se desvendada, despida, exposta
e, ao mesmo tempo, febril, excitada, ansiosa, ardente, ávida, pronta para amar.
Cora e desvia os olhos, cruzando nervosamente os dedos, e balbucia, num
sussurro:
- Sim.
Pierre sorri docemente para ela, com um olhar que a
faz derreter de desejo.
- Eu sei, porque sinto o mesmo que você – retruca
ele.
Era uma loucura invadindo sua mente! Sente-se
vibrante, carinhosa, ardente. Cada palavra provoca nela um efeito incrivelmente
poderoso e Séverine se sente literalmente inundada de prazer, tanto quanto de
desejo.
- O que faltou nas tuas vivências sexuais foi
justamente a excitação da parte mais sensorial do teu corpo: teu cérebro.
Séverine está absorvendo, através das palavras, uma
descoberta tão evidente quanto fundamental e fica ouvindo, muda, olhando para
ele que prossegue.
- Costuma-se esquecer que é no cérebro que se
constrói o desejo e que a imaginação é uma poderosa ferramenta de prazer – diz
complementando seu raciocínio. – Os beijos, as carícias, os toques, a
penetração são, naturalmente, os principais elementos da relação sexual, mas a
excitação do imaginário é uma parte preliminar quase indispensável para a
realização plena e completa do ato sexual.
Enquanto Séverine, emudecida, mastiga
mentalmente as palavras reveladoras, Pierre conclui:
- Gosto muito de uma frase de um autor
africano: “O erotismo, é quando a imaginação faz amor com o corpo.” A meu ver, na sua simplicidade, esta é a melhor definição da incomparável beleza e da imensa complexidade da
sexualidade humana.
Séverine levanta os olhos para ele e
Pierre lê neles a chama da revelação que se acendeu na mente da moça e que está
caminhando pelos recantos mais íntimos da sua imaginação e das suas fantasias.
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