sexta-feira, 29 de março de 2013

Do casamento à sexualidade (5)

 A caminhada cogitativa dessa coletânea objetiva compartilhar algumas reflexões e provocar a meditação sobre um dos aspectos mais importantes - que acho - do nosso quotidiano, bem como apontar caminhos reflexivos que possam conduzir a uma melhor abordagem dos nossos relacionamentos. Convido cada transeunte, seguidor ou amigo do blog passando por aqui a deixar sua contribuição a essas reflexões sobre as quais cada um de nós tem necessariamente uma experiência e uma opinião.
*  *  *

Apesar de tudo que venho comentando desde o nº 1 da série, há de ser claro que não faço a apologia do sexo desenfreado, necessariamente devasso e libertino. Estou somente tentando pôr em perspectiva um olhar diferente sobre o relacionamento entre homens e mulheres abordando a questão com outro ponto de vista, isto é, pelo lado da sexualidade, que me parece e me aparece como crucial nesse relacionamento apesar de quase sempre ser oculto, omitido, posto de lado, recusado até dos motivos que provocam a ruptura de muitos relacionamentos.
"Afinal, o sexo não é tudo num relacionamento!" - dizem muitos daqueles que vivenciaram essa situação. Mas será?

Por outra parte, não restrinjo esse problema relacional ao casamento "de papel passado", pois o fato - a ruptura - não é exclusivo do casamento propriamente dito e pode ser também observado em relacionamentos informais; no entanto, ele não desemboca nos mesmos problemas que no caso do casamento formal e é mais fácil de se resolver. Contudo, em termos emocionais, o trauma da separação e do recomeço da vida "pós-casamento" não fica muito menor.

De fato, como comentado anteriormente, as estatísticas comprovam essa necessidade humana de construir uma vida a dois, como mínimo, o que não exclui uma necessária convivência em grupo, uma vida social. O Ivan Martins, num recente artigo comentando sobre a complementaridade em um casal, salienta: "A nossa humanidade requer o outro."

Pois é! E é bem raciocinando nessa linha de pensamento que escrevo aqui esta coletânea de reflexões, não condenando nada, mas sim tentando desvendar os mistérios que estão por trás do insucesso vultuoso de um convívio geralmente desejado e provavelmente necessário ao nosso bem-estar.

Afinal, tem um argumento "de choque": Ninguém casa para não ser feliz!
Com certeza!
Mas então, por que tantos casamentos dão errado?

Escolha errada, dizem alguns, rotina, dizem outras, sacanagem de um para com o outro... mas por que se aqueles dois se gostavam tanto a ponto de casar?

Eu já estou desconfiado pela própria instituição casamenteira, mas o primeiro "erro" que é comum aos dois parceiros é de fazer uma associação muito simples (simples demais), porém erradíssima, ao equacionar o casamento e a felicidade na relação:

casamento = felicidade

Porém, todos casam pensando ser felizes. Todos, ou quase todos porque tem também uns matreiros que casam por interesse...:-)

Mas o que está errado se todos buscamos casar para sermos felizes?

É que em primeiro lugar, e por definição, casamento envolve duas pessoas enquanto felicidade é individual e intransferível. Portanto, a busca pela felicidade é uma jornada individual enquanto o casamento uma jornada a dois que, assim sendo, exige uma perpétua adequação das duas individualidades para seguir em harmonia.

A isso se acrescenta a evolução individual, necessariamente privativa a cada membro da comunidade (de dois), que contribui a gerar o pomo da discórdia. Mas essa evolução não pode ser responsabilizada, ela é natural. Ao longo do tempo, as pequenas arestas que no início passam desapercebidas graças ao lubrificante poderoso que é o amor - e o sexo - se tornam cada vez mais ásperas chegando a provocar feridas que acabam levando ao fim da relação - do casamento no caso. 55% dos casamentos dão em divórcio nos EUA, 65% na Dinamarca ou na Bélgica; muito menos em países fortemente católicos como Itália ou Irlanda; cerca de 30% no Brasil.


E, dentro dessas evoluções, está a evolução sexual de cada um dos parceiros, amantes ou esposos - que já por natureza, masculina ou feminina, tendem a evoluir de maneira distinta - que sofrem as influências da evolução da própria sociedade, nos seus modos de viver, de pensar, de ser, de olhar e se relacionar.

No seu livro "O Livro do Amor" a psicóloga Regina Navarro Lins atribui a mudança das relações sexuais ao longo da história da humanidade quase que exclusivamente à evolução da mulher, chegando à conclusão óbvia de que no futuro conviverão lado a lado casamentos formais e abertos, a bisexualidade e o sexo grupal. Digo óbvia pois essa convivência já existe, e de há muito tempo, embora tenha sido velada, porque condenada, e continue ainda marginal ou, digamos, precursora.

Eu já vejo o fato como uma evolução da sexualidade humana, como um todo e por isso mesmo que ela é incontornável e inexorável. Mas há um aspecto que a autora desenvolve no livro que compartilho totalmente, é o fato de que ela considera a sexualidade como "uma invenção humana" que, pelo próprio caráter evolutivo da humanidade sofre também esse processo de evolução conforme evolui a sociedade. E de fato, a sexualidade, ou melhor, a busca do prazer através da relação sexual, é própria do ser humano na natureza terrestre.

Por outra parte, me parece que essa evolução é tão marcada por um processo de evolução do homem quanto da mulher, homem que saiu lentamente da sua rusticidade para se tornar, cada vez mais livremente, gay, metrossexual ou bi, a sociedade mais permissiva - diria mais madura - que eclodiu depois da Segunda Guerra mundial, permitindo uma expressão mais plena e desinibida das individualidades.


sexta-feira, 8 de março de 2013

Possessão (4)


A posição não é muito confortável, mas faz parte do jogo que ele mesmo provocou. Claro, o jogo escapou do seu controle, mas conhecendo Séverine, ele não se surpreende com a evolução da situação que ela tomou em mãos com maestria. Resta que está amarrado e não pode nem usar suas mãos, nem mexer muito, e nem escapar das mãos e das fantasias da moça que está demonstrando um requinte brilhante no seu papel de dominadora.
- Estás bem chéri? – pergunta com fingida preocupação. E sem esperar por uma resposta, se ajoelha ao lado dele, leva a taça na sua boca, coloca seus lábios sobre os lábios dele, e solta o líquido aos poucos na sua boca. Pierre bebe, surpreso e maravilhado com a imaginação fértil da moça. Séverine repete a cena, quase esvaziando a taça e levanta o busto, ficando ajoelhada, emborca a taça e derrama o restinho da bebida sobre o peito dele. Ri, se debruça sobre ele e lambe o champagne derramado, lambendo seu peito, seus mamilos, dando-lhes umas mordidas. Pierre estremece quando ela aperta um pouco mais o mamilo entre os dentes, e logo o esfrega com a língua, como ele costuma fazer nela. Dá uma última lambida, descendo pela barriga e para chegando ao umbigo.
Ela se levanta, fica em pé, olha para ele e diz:
- Agora sim, tu és meu, e é assim que vou te possuir!
Dá-lhe as costas e vai levar a taça na mesa. Lá, para e começa a olhar os brinquedos novamente, como se procurasse entender como usá-los. Após um instante, fecha o pano em que Pierre os trouxe e pega o conjunto, o leva até a cama e o deixa no chão, ao lado.
Pierre é dela. Ela o amarrou e está indefeso, entregue ao seu prazer e sua fantasia. É o que ele havia pedido e pelo qual ia se empenhar.
- Possua-me! – dissera ele.
E está pensando que nunca imaginou possuir um homem. Mas a ideia a deixa muito excitada, e assim começa a brincar com ele, sentindo o prazer da dominação.
Séverine o acaricia, beija, mordisca, buscando entrosar-se no papel que pretende assumir, buscando inventar o que precisa fazer para ser a mulher fatal, dominadora, que irá possuir um homem, fazer dele um objeto sexual... Está aprendendo seu papel ao mesmo tempo em que atua, mas as ideias chegam às pressas em sua mente e consegue fazê-lo gemer e se contorcer, além de já ter provocado nele uma bela ereção que ela olha sem dissimulação com um prazer bem real. Suas carícias, percorrendo todo seu corpo, se fazem mais precisas, mais localizadas, centrando-se nos seus lábios, que acaricia com os dedos, os seios e a barriga, que ela morde, lambe e beija, conforme lhe apraz, e o sexo que adula com carícias da mão, lhe acariciando os testículos e o interior das coxas que ele abre de curtição. Séverine sente um prazer muito peculiar nesta carícia. Está deslumbrada com o sexo ereto de Pierre. Morre de vontade de empunhar esse membro grosso e rijo e mexer com ele, tocá-lo, lambê-lo, chupá-lo, mordê-lo... e enfiá-lo nela!
Mas antes disso, precisa enlouquecê-lo.
*
*        *
Debruçada por cima da cama, ainda vestida do robe e o sapato, as pernas dobradas com os pés para cima, numa posição bastante atrevida para atrair o olhar de Pierre e enchê-lo de desejo, Séverine olha para o chão ao lado da cama onde deixou os brinquedos, e escolhe o pênis vibrador. Pega um preservativo, com o qual cobre o falo, devagar, e o besunta de lubrificante, enquanto Pierre a observa, deitado e nu, tornador simples objeto sexual.
Sé olha para ele, sorri, vem colar sua boca na boca dele e o beija fervorosamente. Encerrando o beijo com uma mordida no seu lábio, ela passa um braço por cima do seu corpo, deitando o busto na sua barriga, dando-lhe as costas, e começa a lhe acariciar o sexo, sobre o qual ela deita sua boca. Com a outra mão segurando o brinquedo, ela procura seu ânus e, enquanto o chupa com um delicioso refinamento e um prazer notório, procura enfiar nele o vibrador.
- Vai devagar passarinho – diz Pierre num sussurro, já ofegante.
Ela reduz um pouco sua pressão, mas sem pará-la, e, repentinamente, sente o vibrador aprofundar-se devagar, enquanto o sexo dele cresce e endurece na sua boca.
Incrivelmente, Sé se sente possuindo-o!
E, de súbito, ela percebe o sentido amplo da palavra ‘possuir’, entendendo, ao mesmo tempo, que nas relações de macho e fêmea, homem e mulher, somente o homem tem a condição de possuir, através do seu falo, enquanto a mulher, por natureza, apenas pode ser possuída. Entende o símbolo fálico da espada com a qual você domina, submete, se apossa, em guerreiro vencedor. Porém, naquele momento, é ela que está possuindo o homem que se entregou a ela, e sente-se plena e profundamente mulher por poder deleitar-se dessa dominação, como se fosse ela uma Amazona, uma dessas mulheres guerreiras e dominadoras.
Durante alguns instantes, Séverine explora essa arte da dominação. Sem parar de reverenciar o pênis ereto que a fascina, lambendo e chupando-o com ardência e deleitação, ela possui Pierre com esmero, fazendo-o gemer e se contorcer, sentindo-o rendido, vencido, totalmente entregue a suas carícias, como fizera dela pouco antes. Alterna a penetração, com um movimento de vai e vem dominador, e a excitação com as vibrações que ela comanda por instantes. O sexo dele está imenso na sua boca, o que a enche de satisfação.
*
*        *