quarta-feira, 24 de julho de 2013

50 Tons de novo!


Emblemático das mudanças ocorrendo na nossa sociedade acerca da sexualidade, está o livro da E. L. James "Cinquenta Tons de Cinza", fenômeno editorial traduzido em 37 idiomas, com mais de trinta milhões de livros vendidos no mundo, só em língua inglesa.

Li um muito bom artigo, "O que Querem as Mulheres", na revista Época de julho de 2012, no qual a jornalista Nathalia Ziemkiewicz, então mantenedora do blog Sexpedia da mesma revista, desmonta a trama de sucesso desse livro.

Ela apresenta o livro como pornografia para donas de casa, porque donas de casa também precisam de sexo... e comenta: 
"O sucesso de Cinquenta Tons de Cinza sugere que há muito desejo represado entre a pia da cozinha e a mesa do escritório." 
E, realmente, essa revolução sexual silenciosa é reveladora da repressão na qual, durante séculos, a sexualidade humana foi enterrada viva, permanecendo oculta, velada, culposa, e vitimada por ser discriminada, perseguida e condenada.

E a autora continua dizendo: 
"Mostra, também, que as mulheres estão perdendo o constrangimento em usar pornografia para satisfazê-lo - ou alimentá-lo." 
E é o que assistimos ao ver as capas da trilogia se destacarem nas vitrines das livrarias e na Internet, mas sendo também vendidas em lojas de departamentos, mercados e até postos de gasolina.

Além dessa trilogia volumosa, vieram outras publicações na mesma linha, puxadas ou desenterradas pelo maremoto "50 Tons". A também trilogia "Crossfire", de Sylvia Day, está turbinando nas livrarias. "Para sempre sua", o terceiro da série, já figura entre os livros mais vendidos, e "A Vida Erótica de Catherine M.", da Francesa C. Millet, está esgotado na editora!
É claro que a recrudescência de literatura erótica vem acompanhando essa evolução da sexualidade que comento com louvor.

Longe de ser uma agressão libidinosa ou algum atentado ao pudor, a literatura erótica tem a particularidade de libertar a imaginação, desmistificar práticas e comportamentos, e até, diria, educar, além de provocar o leitor e favorecer a reflexão sobre sua própria sexualidade. Afinal, em qualquer área do conhecimento, e a sexualidade não deixa de ser uma delas, a experiência ou as pesquisas dos outros sempre trazem alguma novidade e um enriquecimento do nosso próprio saber.
A respeito, uma matéria do Ivan Martins, da revista Época, faz uma análise pertinente num paralelo que ele faz entre literatura erótica e imagens pornográficas.

Além disso, creio que a literatura, seja erótica ou não, é sempre lúdica, um meio de evasão e de encanto que nos permite adentrar o universo do imaginário, proporcionando sempre prazerosos momentos recreativos. Afinal, o cérebro é a zona mais erógena do nosso corpo... Em todas as boas livrarias pode-se encontrar livros do gênero. É para usar e abusar... 

Boas leituras!

sábado, 20 de julho de 2013

Do casamento à sexualidade (6)

Finalmente casar ou não casar será esta a questão?

Claro que não!
Decidir de compartilhar sua vida, portanto sua individualidade, sua privacidade, sua intimidade com outra pessoa é um ato muito valioso na nossa vida. A tal ponto que acho entender quem separa várias vezes para poder casar de novo... :-D

A decisão de casar é um ato belo em si, e não é de se admirar que a felicidade lhe seja associada. De fato, ele é precursor de um período de grande felicidade para quem souber lidar com as mudanças que necessariamente vão ocorrer para ambos os parceiros no decorrer dessa longa viagem. No entanto, não faço a apologia do casamento que engessa o relacionamento, a abnegação total e incondicional ao casamento, a ditadura do casamento, mas sim da união que preserva a identidade, a personalidade e a liberdade de cada um.

Mas primeiro, é preciso frisar que "casamento" não significa necessariamente o falado "papel passado", e sim todas as situações em que duas pessoas resolvem juntar suas vidas pessoais, íntimas e sexuais num espaço comum.
Pois na verdade, pouca diferença faz o fato do papel passado ou não, o importante sendo a convivência diária com suas exigências e suas obrigações.
Portanto, consideremos "casamento" todas as situações em que duas pessoas moram juntas e compartilham suas vidas, física e emocionalmente, em busca da felicidade a dois.

No entanto, nada contra o casamento "formal" tampouco, embora creia que, psicologicamente, este acabe frequentemente "pesando" sobre o casal (ou um dos seus membros). Mas aí também, é o despreparo do próprio casal que influencia na importância desse peso. Porém, quando ocorrem desentendimentos, os casados formais ficam presos às normas, e quando digo normas, falo em normas jurídicas, que não te permitem desfazer o casamento por simples vontade própria, mas sim se submetendo ao bem querer da Justiça, o que nem sempre é simples e sem dor.

Mas tampouco quer dizer que não deva haver compromisso nenhum. Embora o fato de ter um "compromisso" a meu ver já altera a relação, o fato de não ter pode resultar em leviandade, o que não é correto tampouco. Tudo é uma questão de maturidade. Maturidade de ambos os parceiros para atingir a maturidade do relacionamento. Por isso, precisa-se achar o "justo equilíbrio"... mas qual será?

E é mais uma coisa para inventar! O que é difícil, claro, nesse mundo contemporâneo tão pobre em criatividade, repisando sempre o passado ao mesmo tempo que o critica e o rejeita. Seria possível ser feliz sem sufocar o outro com o nosso amor? Lhe deixar sua liberdade sem se roer de ciúmes? Preservar a personalidade do nosso companheiro(a) que foi aquela que nos seduziu um dia? 
Esse me parece ser o desafio.

Impossível? Utopia? Heresia?

Tenho certeza que a resposta deveria ser sim se queremos um dia ser realmente felizes. Acho que existe, sim, maneiras de modificar radicalmente as formas de se relacionar e observei um número bastante razoável de casos para sustentar esta afirmação.

E é aí que a questão do casamento "de papel passado" volta a tona. Infelizmente, esse casamento jurídica, administrativa e socialmente formal traz consigo uma carga pesada de valores tradicionais para o imaginário, valores que são dificilmente compatíveis com essa desejável evolução. Até os mais jovens ficam engessados com seu significado.

Acredito pessoalmente que o engajamento espontâneo, verbal, independente de amarras legais que acabam transformando as núpcias em prisão, pode ser o caminho mais seguro para se arriscar nessa jornada complexa que é a vida a dois.
No entanto, volto a dizer, precisa-se de muita maturidade!

Lembro da época em que, na escola, estava se implantando a então chamada "autodisciplina". Dois representantes dos alunos eram eleitos em cada turma com o cargo de assegurar a comunicação entre os alunos e o corpo docente, no intuito de se chegar a uma relação harmoniosa e produtiva, sem por isso ter de recorrer ao autoritarismo. 
Pois bem. Foi um fracasso!
Logo, os professores voltaram a punir, não tendo paciência para esperar o amadurecimento dos alunos que, por sua vez, se sentiam mais seguros com a imposição de limites e a sombra do castigo.
Não é de se admirar que a religião faça tanto sucesso.
E vemos que na idade adulta, não é muito mais fácil e muitos se sentem perdidos na permissividade democrática, sonhando até com a volta à ditadura. 
Mas bom, o assunto não é política!

Portanto, precisa-se de muita maturidade de ambos os parceiros para que esse tipo de relação possa desabrochar com alguma chance de sucesso.
Utopia? Creio que não. Eu diria evolução. A evolução que está em curso, a própria evolução da humanidade.

Como já coloquei em outro post, a sexualidade também evolui e amadurece, e é esse amadurecimento que permite, cada vez mais, a livre expressão da sua individualidade diante da relação sexual. Acredito que pelo fato da sexualidade ser tão importante para o ser humano, ela se beneficia de uma atenção e um interesse maior de cada indivíduo para seu livre controle.
Daí, a meu ver, a explosão do assunto "sexo" em todos os meios de comunicação, em produtos de todos os tipos, a sexualidade tornada cada vez mais pornográfica, enfim, os excessos comuns aos primeiros momentos da liberdade dada sem a devida maturidade.

No entanto, caminhos existem, e não é a volta da repressão que facilitará a evolução da humanidade. Já sabemos do período de obscurantismo que foram os mil anos da Idade Média e o mal que isso causou à humanidade para sua evolução. Espero que não recomecemos.

Por outra parte, acredito que a sexualidade desempenha um papel relevante na psicologia humana e que estamos vivendo um momento de mutação graças a esse desabrochar. Entretanto, não se deve deixar correr tudo solto por aí e um mínimo de maturidade precisa eclodir para que todos possamos lidar com a nossa própria humanidade. E esse desafio é um motivo pelo qual resolvi me embrenhar no assunto, tentando analisar as diversas facetas de uma situação que já está em curso e publicando essas reflexões para serem compartilhadas, discutidas, confrontadas e defendidas, no intuito de contribuir no sentido dessa evolução.