Escrever é uma paixão, é uma expressão da arte de construir pensamentos com as palavras...
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Possuir! (2)
Possuir é ter o domínio pleno e irrestrito sobre alguma coisa.
Um filme retrata muito bem esse sentimento, ou essa relação, melhor dito, é "O Império dos Sentidos" (1976) do diretor japonês Nagisa Oshima. Apesar de ter sido alvo de inúmeras críticas, porém muitos elogios também (por sua vez bastante criticados pelos - falsos - moralistas), o filme vai muito além da pornografia aparente (e explícita). Mas como retratar esse tipo de aspecto relacional (o sexual) sem entrar na expressão explícita das sensações e dos sentimentos proporcionados pelos atos em si? Como falar da diversidade das fantasias sexuais ou dos variados prazeres e suas formas de alcançá-los através de atos sexuais sem descrever ou mostrá-los?
De certa forma foi esta reflexão que me conduziu a escrever contos eróticos.
Mas voltando ao filme, se trata de uma paixão descomunal e obsessiva que leva os protagonistas aos limites extremos da sua sexualidade numa busca incessante pelo prazer que leva até a morte. Se o filme chocou no fim da década de 70 e que continua sendo objeto de críticas, se ainda hoje se tem muitos tabus relativamente aos assuntos envolvendo o sexo, vale lembrar que o filme retrata uma história real que ocorreu em 1936! O que mostra que a sexualidade sempre foi assunto intrínseco ao ser humano e que, apesar da liberdade teórica que temos hoje para falar do tema, todos sabemos da dificuldade de abordá-lo de fato no quotidiano, mesmo nas suas formas mais "aceitas" ou, talvez, "convencionais".
Pois então, possuir é esse sentimento de abandono total capaz, no ato sexual, de satisfazer ambos os parceiros, tanto ao exercer seu domínio sobre o outro, quanto ao entregar-se de corpo e alma. Isso que retrata muito bem o filme comentado, a meu ver.
O que tem a ver com sexo anal?
Muitas coisas, creio, mesmo porque a sodomia na Antiguidade era diretamente ligada a uma relação de dominação, de poder (mestre e escravos em especial). Por outra parte, a penetração em si é uma forma inconsciente de dominação do outro, portanto a espada ou a lança representando o falo na simbologia psicanalítica.
Mas a sodomia é também uma forma de estimulação de uma zona erógena, o ânus. "Na verdade, é uma zona erógena mais completa que as outras, e que oferece um leque amplo de sensações" diz a escritora Coralie Trinh Thi no seu livro "Ouse... a sodomia"(1).
E foi a partir da assimilação do ânus como zona erógena que me apareceu uma evidência incontornável: o sexo anal é a única prática sexual (exceto o beijo) em que existe igualdade entre o homem e a mulher! Tanto nunca poderemos, homens, experimentar a sensação de um orgasmo clitoridiano, quanto as mulheres experimentar o prazer masculino do coito, mas ambos podemos experimentar e comparar nossas sensações com a penetração ou a excitação anal.
Revelação para você? Não? Para mim foi.
Levei muitos anos antes de o meu raciocínio alcançar este aspecto da sexualidade, mas é uma evidência que merece reflexão. E fucei o assunto, percebendo que o ato é ainda um dos maiores tabus que permanecem acerca da sexualidade. Ouvi o caso de uma jovem discriminada de repente dentro do seu grupo por confessar que "deu o cú" pró namorado a suas colegas. Teve o caso da cantora Sandy que foi assolada de comentários dizendo que gostava de sexo anal (zombando dela claro) por causa de certo comentário feito à PlayBoy, sem falar dos corriqueiros "vá tomar no ...!" que bem mostram a alta estima que se tem pelo ato na nossa sociedade.
Por outra parte, para os que "ousam" a sodomia, a prática permanece um ato nem tão banal, seja entre héteros seja entre homossexuais, e este somente é realizado mediante preliminares, cumplicidades e, até, rituais, bem específicos. Contudo, se apenas 20 a 25% dos casais héteros confessam incluir o coito anal dentre suas práticas sexuais, homens e mulheres, em proporções quase idênticas, dizem tanto gostar de excitar seu parceiro(a) quanto de ser excitado(a) por ele.
Resta que, queira ou não, o sexo anal não é nenhuma perversão, mas sim uma das múltiplas formas de realizar um dos atos mais importantes na vida do ser humano: o ato sexual.
Rastreei na net um vídeo "didático" do SBT que ensina como se preparar e realizar um coito anal "bem-sucedido" que deixo aqui para os mais curiosos, ou os mais ousados, que gostariam de experimentar.
Divirtam-se! :-)
(1) "Osez... la sodomie" - Coralie Trinh Thi - Editions La Musardine - Paris
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Possessão (3)
- Ajoelhe-se na cama!
Completamente submissa e conquistada, Séverine se vira e se ajoelha
sobre a cama. Ela sente a mão de Pierre nas suas costas e estremece. Pela
primeira vez, ele encosta a mão nela e é como se tivesse recebido uma descarga
elétrica. Ao mesmo tempo em que a mão dele corre sobre sua coluna em direção a sua
nuca, Pierre encaixa o corpo por trás dela e começa a se esfregar. Ela sente
simultaneamente o calor do seu pênis, a rugosidade do tecido e a aspereza dos
botões da calça que não retirou e que a machucam.
O busto pressionado sobre a cama, a bunda para cima, nua, sua
intimidade totalmente exposta aos seus olhares, seus toques, sua vontade, ela se
sente como se fosse uma prostituta totalmente entregue ao bel-prazer do seu
cliente.
Mas, apesar de tudo, Séverine se sente tremendamente excitada e
plenamente realizada. Muitas vezes imaginou ser a “Belle de Jour”, submissa à
vontade de um cliente que nem escolhera, sexualmente entregue a um
desconhecido, quiçá um tarado, lhe obedecer e satisfazer suas vontades, seus
desejos ou suas fantasias. E Pierre estava agora lhe proporcionando essa
descoberta. Descoberta do sexo, da submissão, da fantasia, da humilhação, e até
da rudeza e da dor.
Está se deleitando nesses pensamentos envolventes e fugazes quando ele
diz:
- Acaricie-se, que quero te olhar te tocando, cadela!
Mais uma vez, a voz dele é uma chicoteada. Fala grosseiramente e com
aspereza para humilhá-la. Mas ela sente um prazer estranho em ser tratada
assim, como uma puta vadia, e está gostando de sê-la naquele momento. Empinando
ainda mais sua bunda, lasciva e arrogante, ela passa a língua nos seus dedos,
enfia sua mão entre suas pernas e começa a acariciar seu clitóris, lenta e
voluptuosamente, rebolando seu quadril. [...]
*
* *
Séverine estremece e faz um movimento repentino para erguer o corpo
quando Pierre aconchega seus dedos sobre seu ânus que começa a massagear. A
sensação abrupta dessa mão tocando uma das partes mais íntimas do seu corpo lhe causa uma sensação de violência
da qual tenta escapar. Mas Pierre a segura firmemente e, desta vez, aumenta sua
pressão, a tal ponto que se sente cravada naquela posição, sem possibilidade de
se libertar, impotente e definitivamente submissa.
- Relaxa! - diz com uma voz suave e apaziguante. – Continua te
acariciando!
Dócil, Séverine faz o que manda, e de fato se sente relaxando,
curtindo agora todas as sensações que lhe trazem as carícias e a situação. O
toque que achou aviltante num primeiro instante passa a ser uma sensação não totalmente
desagradável e até começa a gostar enquanto Pierre segue com sua carícia,
demoradamente, apertando cada vez mais.
[...]
A penetração foi repentina e seu ânus está doendo, mas ao mesmo tempo
em que o sexo de Pierre a penetra, uma excitação íntima a possui no bojo do seu
ventre e ela sente uma mistura de prazer e de dor, em que o prazer domina. E se
surpreende a mexer o quadril, relaxando-se, e fazendo-o aprofundar-se ainda
mais.
Sentindo Séverine relaxar e movimentar o quadril, Pierre a solta e
pega no bolso um pequeno vibrador que liga, buscando seu sexo, e a penetra
duplamente.
Desta vez, Séverine não se debate mais. Solta um longo gemido, mexe
seu quadril para acomodar-se, para disfrutar de todas as sensações que a
devoram, por todas partes, e começa a agitar-se com mais rapidez e intensidade.
Agarrando seu quadril e aprofundando-se o quanto possível, deliciado com seu
sexo apertado dentro dela, Pierre sente que vai gozar; uma sensação que o
enlouquece de prazer. Ela está ofegante, mexendo o corpo desordenadamente,
invadida, dominada, possuída, tomada por uma sensação de prazer descomunal, e Pierre,
não conseguindo mais resistir ao apelo da sua amante em delírio, sente os
espasmos do seu sexo explodindo nela. Seu orgasmo sacode Séverine que, também, goza
mais uma vez, um orgasmo mais forte, mais violento, lhe arrancando um grito de
prazer, um longo gemido parecendo o alarido de uma guerreira no calor de uma
batalha.
*
* *
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Possuir!
Ao mesmo tempo sugerindo posse ou subjugação, possuir toma no ato sexual uma dimensão peculiar de dominação ou de submissão, que poderia pressupor alguma relação de superioridade. No entanto, de acordo com o sentimento ou o desejo de um ou outro dos parceiros, possuir pode se revelar uma troca interessante na relação de dominação e frequentemente aquele que encontra prazer ao se submeter ao outro experimenta o maior deleite em dominar e, a sua vez, possuir!
Entretanto, as formas dessa "possessão" do parceiro muda sensivelmente em se tratando de homem ou de mulher pois o homem possui, no próprio falo, o instrumento de sujeição. Daí é muito mais comum ouvir que o homem possui a mulher, quando o inverso é bem mais raro.
Será que a mulher não pode possuir?
De forma muito mais sutil sim, a mulher pode dominar o homem sexualmente, deixando ele enlouquecido na beira do orgasmo, e felizardo aquele que terá a chance de ser dominado assim.
Mas são muitas as formas de dominar ou ser dominado e o universo BDSM é voltado para as mais requintadas delas, sejam físicas ou psicológicas. Embora não seja adepto das práticas, estas deixam a perceber a importância da relação de dominação na sexualidade humana pelo lugar que toma no dia a dia, seja nos sex-shop, seja na literatura (o arrebatamento de Cinquenta Tons de Cinza é uma ilustração perfeita do fenômeno), seja em jornais ou revistas e mesmo na televisão.
Dominador ou dominado, não tem grande importância, pois o que importa é que se desenvolva a relação de dominação entre os parceiros, e se observa, em graus maiores ou menores, o gosto em atuar em uma ou ambas as situações, tanto nos homens como nas mulheres. A esse respeito, me chamou muito a atenção a questão do sexo anal, pois de todos os relatos que li e ouvi, o prazer no coito anal foi relatado como intimamente ligado às sensações de dominação e de submissão.
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